Depois do post do @rafelcavalcante “Brasileiro é… Mentira!“, um amigo meu e futuro colaborador do Indico Já! comento comigo e comentou no post também. Achei mais justo fazer um post pra que todos possam ler, ae vai:
Realmente, o texto postado é ótimo para a reflexão.
Não sobre o Brasil, como o texto se propõe, mas sobre essa mentalidade de supervalorização da cultura externa, especialmente a europeia, em detrimento da cultura local.
Trata-se de um texto, no mínimo, ignorante; apesar de atribuído a Arnaldo Jabor, eu acredito que está mais no nível de algum pseudo-jornalista acéfalo mais “radical”, tipo o Datena.
O autor se propõe a trazer uma verdade absoluta acerca do Brasil, está cheio de premissas tomadas como fatos, e, no entanto, não apresenta nenhum dado, apenas juízos de valor. O Brasil é um país multicultural, então qualquer generalização que vise a traçar um perfil do brasileiro está fadada ao fracasso, ou pelo menos à imprecisão. E o texto postado não é exceção.
Mais do que verdades sobre os brasileiros, o autor – provavelmente algum reacionário ressentido – faz uma mera propaganda ideológica.
“Brasileiro é vagabundo por excelência.”
“Brasileiro é um povo honesto. Mentira.”
Que fatos será que sustentam essas afirmativas, além do senso comum que serve para defender uma ideologia? A resposta é óbvia: nenhum.
A degradação do “povo brasileiro”, termo que sequer representa algo uniforme, tendo em vista a extensão do nosso território e a variedade cultural do nosso país, é condizente com a supervalorização do europeu que o autor faz:
“Se você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso. Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.”
Novamente, o autor faz uso do senso comum que toma as culturas européias como superiores, ideais, quando elas são, na realidade, apenas diferentes. A hipótese de um policial europeu não aceitar uma propina de 50 Euros, além de um mito e uma generalização (para comprovar a suposta “superioridade europeia”), é também uma questão estrutural: a situação social dos policiais brasileiros é muito diferente do difuso “policial europeu”. 50 Euros talvez não funcionem com o hipotético policial, porque seu Estado lhe dá condições de sobreviver com um salário de servidor público.
Portanto, não cabe aqui utilizar padrões morais de certo e errado, o que também é uma questão cultural. As pessoas tendem a analisar as demais a partir da própria cultura, dos próprios conceitos, processo que a antropologia chama de etnocentrismo. O autor do texto desconsidera a história de formação do dito “povo brasileiro” e toma como base para seus julgamentos infundados uma cultura completamente diferente.
Além das questões políticas e ideológicas, como a crítica ao bolsa-família e ao governo, tece também uma crítica preconceituosa ao governador:
“Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida.”
Essa é uma crítica unicamente política, e expressa nada mais do que o desagrado de um direitista com o fato de um governo de esquerda ter ganhado as eleições de forma legítima. Sem entrar nos méritos de Lula e seu governo, além do preconceito com os garis (será que o texto é do Boris Casoy??), “preparação” é algo muito subjetivo, e escolaridade não é sinônimo de capacidade.
Entre várias afirmações racistas, preconceituosas e ignorantes, o juízo que o autor faz da população das favelas, mais do que preconceituoso, é fascista. A criminalização da pobreza é uma ótima desculpa para defender limpezas étnicas e/ou sociais. Além disso, serve também para defender o ideal neoliberal do Estado mínimo, ou seja, “pra quê gastar dinheiro com políticas públicas e assistencialismo, se são todos uns bandidos? Quem tiver capacidade, competência, independente de classe social, se vira.” Claro que a ideologia da competência não leva em conta a diferença do grau de esforço e determinação necessária para pessoas de diferentes classes sociais para serem “bem-sucedidas”, mas isso já é outra questão.
O texto ainda tem muitas outras partes absurdas, é um discurso político inflamado e perigosamente extremista. É interessante notar, também, a forma como o autor se distancia do “povo brasileiro”. Ele se posiciona num patamar superior, distante daquele que chama de “povinho de merda”, do qual, embora não admita, faz parte. Talvez isso, e não as causas furadas que ele alega, seja o verdadeiro motivo do “caos político” a que ele se refere: não o caráter de um povo variado, e justamente por isso rico culturalmente, mas o fato de alguns membros da elite (econômica, talvez social, mas como fica provado no texto, JAMAIS intelectual) se considerarem superiores e desligados da população, caso dos políticos que governam para si.
Bom, pra finalizar, é importante ressaltar que uma coisa é ser de direita, neoliberal. Outra coisa completamente diferente é ser fascista, racista, e ainda por cima, burro.
A criminalização da pobreza é uma ótima desculpa para defender limpezas étnicas e/ou sociais.


